
- Fiquei sabendo que tu és doido. Que tens problemas mentais... É verdade?
- Claro que não. Estás sendo bobo. Sou um homem culto. Eles têm inveja. Acreditas em mim?
- Se estás dizendo...
- Ora, vamos. Posso conversar contigo sobre qualquer assunto... Vamos, pergunta-me o que quiseres! Achas mesmo que sou louco?
- Não, apenas ouvi alguns comentários...
- Comentários? Quais? O que eles te disseram?
- Nada... Bobagens.
- Não, insisto. Dize-me!
- Eu acredito em ti. Mas não posso contar. É perigoso... Eles estão sempre aqui, escondidos, espreitando, vigiando. É perigoso...
- Quem são eles?
- Sabes muito bem.
- Sei, sei muito bem... Acreditas mesmo em mim?
- Claro que sim... Estás aqui conversando comigo. Como poderias ser louco?
- Então preciso que me faças um favor. Fazes?
- O que queres?
- Eles pretendem me matar. Há muito estão tentando. Sinto que estão cada vez mais próximos...
- Sim, dize-me o que queres de uma vez por todas!
- Quero que me ajudes a fingir minha morte.
- Agora estou começando a acreditar que és louco de verdade.
- Não, não... Ouve com calma. Se eles acreditarem que morri, só assim terei um pouco de paz. Vamos, sou um homem rico... Posso te recompensar por tal favor.
- Bem, se é assim que queres... Está certo. Como pretendes fazer isso?
- Ainda não sei... Estou pensando em todos os detalhes. Amanhã continuamos esta conversa.
No dia seguinte...
- Já decidi como faremos tudo.
- Conta-me então...
- Estás vendo aquele homem? Ali, encostado na parede... Pois então, ele é um deles. Terás que fazer tudo na frente dele. Só assim eles acreditarão que realmente morri...
- E o que diabos terei que fazer?
- Muito simples...
Metendo a mão no bolso, segura um objeto pontiagudo...
- Pegue isso. Guarde com todo cuidado. Terás que enfiar isto em meu coração...
- Mas estás doido? Se eu enfiar isto em teu coração, morrerás em segundos...
- Pensas que sou burro? Quando nasci, os médicos logo notaram um problema em meu coração. Não chega a ser exatamente um problema...
- Como assim?
- Meu coração fica no lado direito do meu peito... Você terá apenas que me ferir no lado esquerdo. Eles acreditarão que o golpe foi fatal...
- E depois? O que acontecerá?
- Tenho muitos amigos importantes. Já está tudo arranjado para a minha fuga... E tu não serás preso. O delegado é um grande amigo meu. Não há motivos para preocupação.
- Quando queres fazer?
- Depois de amanhã.
- Está certo.
Dois dias depois...
Os dois sujeitos se esbarram. Imediatamente, um deles puxa um objeto pontiagudo e desfere um golpe brutal sobre o coração do outro. Sem chances de sobrevivência, diria qualquer um que presenciasse a cruel cena.
No mesmo dia, à noite...
- Ficaste sabendo do que aconteceu na ala 3?
- Sim... O desgraçado quase conseguiu o que queria!
- Do que estás falando?
- O morto! Ele tinha mania de perseguição... Achava que eu queria matá-lo.
- Sim, mas e daí?
- E daí que ele era doido, mas era também muito inteligente...
- Não estou te entendendo.
- Ele convenceu o outro paciente a "fingir" a sua morte, acreditando que assim conseguiria escapar.
- Fingir? Mas ele morreu de verdade, oras!
- Eu sei... Ele só não sabia que o "outro" também tinha um problema...
- Como assim?
- O cérebro dele apresentava características essencialmente femininas. Ele nunca sabia onde ficava a esquerda e a direita...
** Texto antigo e sem graça, válido apenas como um exercício **